A campainha tocou e as conversas foram cessando e os caminhos tomados, cada um para seu pavilhão. Àquela hora havia sempre uma pequena multidão a tentar entrar, não por gosto, mas por dever. Ela corria. Tinha dormido pouco, um trabalho por melhorar causou-lhe insónias falsas. A apresentação outra dor de cabeça, e a custo tentava desviar-se de todos os que preferem os cinco minutos depois. Mas não conseguiu evitar e bateu nele. Tinha velocidade e rodou sobre sim mesma num rodopio incompleto, faltava-lhe um par para sua dança ser perfeita. Os cabelos, compridos, despentearam-se, e a mala ao tiracolo saiu do seu habitual sítio. Tudo se mexeu. Ele segurou-a. Esperava-a, desejava-a. E agora tinha-a nos seus braços. Olhou-a nos olhos e viu que eram de um castanho tão escuro e puro, quase pintados a óleo. O cabelo escuro ondulado e encaracolado nas pontas estava lindamente desalinhado. Os lábios, com um batom tão suave, apeteciam mordiscar. Toda ela cheirava a baunilha e Verão. Ficou rendido e esqueceu a última conquista que tinha à espera. Esqueceu aquele prazer sem sentimento, vindo de, só mais uma para juntar a uma já extensa colecção. Sentia um calor como nunca tinha sentido, apesar de deitar aquele frio de Inverno pelo nariz e pela boca. As respirações descompassadas, os batimentos incertos, mas tão certos. Acho que o tempo parou. Ali, à porta do pavilhão mais movimentado. Os beijos e abraços da nova aquisição loira dissiparam-se. Ele sentia-se vivo. Com o seu cachecol preto e cinzento, tão de acordo com um tom de pele moreno, quente. Os braços transmitiam uma sensação acolhedora, onde apetecia dormir. Quando voltou a si, ela estava num parque, um tanto ou quanto familiar. Haviam passado horas, e ele desaparecera. Sentia um frio, uma falta de abrigo, de amor. Não conseguiu evitar as tristes, grossas lágrimas que lhe rolaram até aos lábios, foram como que engolidas. Tinha medo. Até que sentiu uma respiração a aproximar-se. Ele. Trazia dois cafés, quentes. Mesmo sem lhes tocar sentiu outra vez o calor reconfortante. Amo-te, ouviu. Queria responder-lhe mas tinha uns lábios presos aos seus. Um beijo, molhado. Mais lágrimas e ele assustou-se. Desculpa, já tenho o meu coração preso a ti há semanas. Vi o teu texto e apaixonei-me. Desde aí tem crescido dentro de mim uma flor. Acho que te pertence. Ela, não conseguiu impedir um sorriso, o mais verdadeiro alguma vez visto. Sentia a flor nascer em si, sabia-o quando olhava aqueles olhos castanhos-verniz. Escrevia e lia, diariamente e sabia que não podia perder um rapaz assim. Abraçou-o. Vamos embora daqui. Quero ver flores e dizer-te de que cor é a que está dentro de mim, disse ela. Agarrou-lhe na mão e foram, pelas ruas fora, lado a lado. Tão independentemente dependentes.
Dezembro de 2008
Dezembro de 2008
1 comentário:
o que posso dizer? toda tu és escrita :)
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